'E a vida, como que ta?' Papo furado e a verdade sobre morar fora do país - Bus 142
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‘E a vida, como que ta?’ Papo furado e a verdade sobre morar fora do país

Meus amigos sabem que eu sou implicante. Sou cheia dos TOCs, não-me-toques, coisa certa, hora certa, etc e tal. Por exemplo, quer me ver maluca é dizer “Mari” e não terminar a frase antes de eu dizer “que?”. Especialmente no WhatsApp. Gente, só eu vejo essas mensagens, podem mandar bala aí!

Tem explicação pra um incômodo desses? Não, não tem. Não é fácil ser meu amigo e um beijo no coração de todos vocês que se esforçam, ta?

Mas quero falar de uma coisa que eu nunca fui boa, e que tem sido ainda mais difícil de lidar desde que me mudei do Brasil: papo furado. O famoso “e aí, como estão as coisas?”. Tá, quais coisas? Alguém é bom em papo furado nessa vida? Eu espero que sim, porque eu não sou e não entendo porque ele existe.

Minha resposta varia entre um “to” bem resumido e acabou, ou detalhes específicos e desnecessários como “olha, to bem sim, mas desde que comecei a fazer yoga tenho sentido uma dor no dedinho do pé direito. As vezes ele fica formigando, sabe? Já aconteceu isso com você? To pensando em usar meia de compressão pra dormir, mas com esse calor, não sei não…”

Ok, eu sei que papo furado é uma forma educada (e algumas vezes até necessária) de começar uma conversa e tudo o mais. Mas quando você mora fora do país e seus amigos na maior boa vontade acabam te perguntando:
e a vida no [nome do país aqui], como que é?

Sabe o que acontece dentro da cabeça nessa hora? Uma avalanche de sentimentos.

E aí, como é a vida no Panamá?

Começando do começo: Morar fora do país é um sonho antigo e um objetivo que eu tenho, bem… desde que eu voltei para o Brasil depois da temporada aupair USA 2008/09. Só para contextualizar, caso você ainda não saiba, eu moro na Cidade do Panamá com meu namorado desde março de 2016.

Infelizmente a vida no Panamá não é só Caribe. Mas o instagram, provavelmente! | Foto: San Blas, Jun/16

Infelizmente a vida no Panamá não é só Caribe. Mas o instagram, provavelmente! | Foto: San Blas, Jun/16


Morar fora do Brasil, pra mim, é sim uma experiência incrível, cheia de auto conhecimento e um monte de oportunidades legais. É ótimo e era o meu sonho. Então, se precisar resumir, eu preciso dizer que estou muito feliz.

Mas é claro que a vida não é esse mar de rosas todo. É preciso se readaptar a tudo. Tudo mesmo. Uma nova língua, novas pessoas, reaprender a usar o transporte público, entender como funciona o clima, pegar o jeito de usar a moeda, entender o cardápio. Uma lista sem fim de coisas pra aprender de novo. Tem dia que eu só queria combinar de encontrar meus amigos no boteco e jogar conversa fora, e não dá. Tem vezes que bate aquela dúvida existencial e eu preciso de colo de mãe, mas preciso me contentar com as conversas do WhatsApp. Tem saudade monstra do meu sobrinho, e tem aniversário de 2 anos com tema de dinossauro que eu perdi. Tem até show em São Paulo da banda favorita da adolescência se reunindo depois de 2 décadas que eu preciso fazer de conta que não to vendo ~alô, Axl Rose, vem pro Panamá!~

Tem hora que eu só quero um suco verde, mas não sei onde encontrar couve aqui. Não sei nem como que fala “couve” em espanhol. Ir ao mercado, na verdade, é um capítulo todo à parte. E falar espanhol, também. Outro capítulo é explicar, em espanhol, onde você mora pro motorista do Uber, porque no Panamá não se usa endereço. E também tem pouco metrô. E se eu precisar ir ao médico, então? Como que eu explico pra ele o formigamento do dedinho do pé? (Dica: é na mímica!)

Fora as muitas dúvidas. Onde a gente vai passar os feriados de Fim de Ano? Com que frequência a gente vai visitar o Brasil? Como faz pra votar à distância? Pra renovar meu passaporte é só ir no consulado? Quando a gente vai poder comer um pastel de feira de novo? Como que eu explico no cabeleireiro que eu quero um desfiado suave? Por que eu não encontro rodo pra vender aqui de jeito nenhum?

Quando me perguntam como é a vida no Panamá, eu penso nisso tudo. Pode ser que eu comente com todos esses detalhes, ou pode ser só que eu demore uns minutos a mais e diga:

Ah, tá tudo bem! Mas que calor, viu? E por aí, como vão as coisas?

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Esse post faz parte do BEDA: blog everyday in August. Não, eu não estou postando todos os dias (fuén), mas tem mais posts com a tag aqui.

BEDA

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16 Comments

  • Reply
    Lua
    08 de agosto de 2016 at 23:29 11Mon, 08 Aug 2016 23:29:18 +000018.

    Que legal né. A gente fantasia muito a vida fora do país, é uma transformação, nos faz ver a vida de outra maneira. É tipo aprender tudo de novo, com um novo olhar. ^^

    • Reply
      Mari Guedes
      09 de agosto de 2016 at 01:16 01Tue, 09 Aug 2016 01:16:50 +000050.

      É uma delícia, Lu! Eu recomendo pra todo mundo. Mas tem várias partes chatas, e de qqr forma, é isso mesmo, começar várias coisas do zero!

  • Reply
    Vy
    09 de agosto de 2016 at 15:41 03Tue, 09 Aug 2016 15:41:16 +000016.

    Papo furado é um saco e tem dia que é a última coisa no universo que a gente precisa, mas eu entendo que é a maneira que as pessoas acham educado pra mostrar que se importam, ainda mais quando estamos longe. As vezes tudo o que eles querem é dar um oi porque a saudade aperta do outro lado também. Da última vez que fui passar um tempo fora foi muito mais fácil por causa do Whatsapp, das primeiras vezes era sofrimento até pra achar uma lan house do outro lado do mundo! Mas não dá pra pedir que quem nunca saiu de casa entenda o que é morar fora, não são os grandes eventos que definem isso e sim essas coisas do dia a dia que fazem toda a diferença do mundo nas nossas vidas.

    • Reply
      Mari Guedes
      09 de agosto de 2016 at 19:22 07Tue, 09 Aug 2016 19:22:11 +000011.

      Vy, vc tem razão. É só que em um mundo tão corrido em que ser superficial é valorizado é bom quando a gente encontra alguém que ultrapassa essa barreira, né? <3 Me dá detalhes, me conta do crush do metrô, o que vc comeu hoje...

      Eu lembro qd fui morar longe pela primeira vez e alguém me disse: a sua vida mudou completamente, a das pessoas que estão aqui continuam a mesma coisa, mas sem vc. E eu entendo que não é fácil mesmo. Eu continuo respondendo o papo furado! haha

  • Reply
    Bruna Morgan
    09 de agosto de 2016 at 19:37 07Tue, 09 Aug 2016 19:37:46 +000046.

    Uau, mas mesmo com todas essas dificuldades, aposto que você não se arrepende nem um pouquinho <3 <3

    ✦ ✧ http://bruna-morgan.blogspot.com ✧ ✦

    • Reply
      Mari Guedes
      10 de agosto de 2016 at 02:13 02Wed, 10 Aug 2016 02:13:24 +000024.

      Nem um pouquinho <3 Mas tive que trazer um rodo do Brasil, porque viver sem rodo NÃO DÁ!

  • Reply
    Isa
    10 de agosto de 2016 at 12:35 12Wed, 10 Aug 2016 12:35:10 +000010.

    eu acabei de conhecer seu blog (através do BEDA) e estou adorando! boa sorte nessa fase nova 🙂 na minha última viagem, conheci uma portuguesa que morou 1 ano no Panamá e ela era completamente apaixonada!

    • Reply
      Mari Guedes
      11 de agosto de 2016 at 01:20 01Thu, 11 Aug 2016 01:20:10 +000010.

      Obrigada, Isa <3 Tem muita coisa boa, sim! Tipo estar tão pertinho desse mar azul do Caribe!

  • Reply
    Fernanda N
    20 de agosto de 2016 at 08:15 08Sat, 20 Aug 2016 08:15:40 +000040.

    oi mari, tudo bem?
    estou estreando aqui no seu blog e vim para esse post, que não era o último da página inicial, porque eu compartilho com você o sonho de morar fora. fiz intercâmbio no canadá em 2009 e voltei de lá apaixonada pelo país. até hoje, penso em voltar… e achei muito demais que você fez as malas e se foi. não sou muito fã do espanhol, apesar de já ter estudado e me virar bem, mas deve ser bem diferente mesmo morar no panamá… fiquei curiosíssima sobre você não encontrar rodo aí! hahaha… mas enfim, também não sou muito fã de papo furado… odeio quando alguém me manda mensagem e pergunta “oi, tudo bom?” e não fala mais nada — esperando sua resposta, primeiro. dependendo de quem mandou a mensagem, vai ficar sem resposta. tipo, quer falar? então vai direto ao assunto, né? não fica enrolando… ¬¬ também não tenho paciência para isso e ó… mando beijo no coração pra quem tem coragem de ser meu amigo, porque ó… eu também não sou fácil. xP
    beijoooo

    • Reply
      Mari Guedes
      23 de agosto de 2016 at 14:50 02Tue, 23 Aug 2016 14:50:04 +000004.

      Olha, Fe, meu amigos merecem um prêmio, viu? hahaha
      Mas falando sério, o mundo ta bem superficial, né? Acho que cabe à gente ser essas pessoas que fazem as perguntas íntimas, que não esperam a resposta do “tudo bem” e compartilham as alegrias e as dores dos nossos queridos. Precisamos de mais gente assim <3
      A experiência no Panamá ta sendo ótima - com seus altos e baixos, claro. Tbm não sou a maior fã do espanhol, não, mas depois de um tempo esse para de ser o maior desafio, viu. E o rodo eu trouxe na mala quando fui visitar o Brasil! hahaha

  • Reply
    Kelly Melchiades
    23 de agosto de 2016 at 19:16 07Tue, 23 Aug 2016 19:16:37 +000037.

    Papo furado dá preguiça né? rsrs mas quando te perguntarem sobre como tá a vida no Panamá manda o link desse post!rsrs Quero muito morar fora do Brasil mas isso no momento me parece uma realidade tão distante sabe?…deve ser o máximo mesmo. Vou te acompanhar por aqui, um beijo!

    • Reply
      Mari Guedes
      05 de setembro de 2016 at 23:29 11Mon, 05 Sep 2016 23:29:19 +000019.

      É uma boa ideia, viu, Kelly? Hahaha Acho que vou começar a fazer isso 🙂
      Quanto a morar fora, existem muitos jeitos… é tudo uma questão de mapear e ir organizando as coisas. Parece distante, mesmo, mas uma hora deixa de ser e a coisa simplesmente acontece! Se esse é seu sonho, segura firme 😉
      Beijos

  • Reply
    Alê
    05 de setembro de 2016 at 18:05 06Mon, 05 Sep 2016 18:05:13 +000013.

    Cara, super me identifiquei com a couve e com o rodo porque aqui também não tem! O que tem aqui mais parecido com rodo é um negócio que você encaixa um pano e ele se movimenta, não é fixo que nem nosso rodo que puxa a água. Mas aí eu descobri que aqui na Ucrânia não se tem o costume de lavar o chão. Tem uns produtos e tal, depois passa o pano em cima e é isso. Deixo esse serviço completamente nas mãos da faxineira e nem me meto. Outra coisa que não se usa aqui é álcool para desinfetar as coisas sabe? No máximo você consegue encontrar aqueles frascos pequenos de álcool em gel para limpar a mão. Será que dá para desinfetar as coisas com vodka? hahaha

    • Reply
      Mari Guedes
      05 de setembro de 2016 at 23:37 11Mon, 05 Sep 2016 23:37:53 +000053.

      Aqui só tem aqueles esfregões, sabe? Não sei viver assim! Como que eu vou lavar o banheiro?! hahaha
      Mas eu acho que só o brasileiro mesmo que tem essa relação mais séria com a limpeza. Quando morei nos EUA lembro que achei bem bizarro que lá tudo é limpo à base dos sprays + papel toalha. Faz parte da adaptação a cultura, né? (Mas o rodo, no caso, eu trouxe do Brasil hahaha)

  • Reply
    Flávia Donohoe
    06 de setembro de 2016 at 17:40 05Tue, 06 Sep 2016 17:40:32 +000032.

    Oi Mari, eu adorei demais seu blog, tô aqui vasculhando tudo.
    Eu trouxe rodo e várias coisas do Brasil, ainda uso o mop ou esfregão, mas tenho rodo, vários panos de chão, eu sou a exagerada da limpeza, hahaha
    Falando no Panamá eu também gostei muito daí, mas que lugar quente, affe, gostei bastante do centro antigo e da parte moderna também, eu achei Havana bem parecida ao Panamá.
    Resumindo, me identifiquei muito com você, mudança de país é um saco, hahaha

    • Reply
      Mari Guedes
      16 de setembro de 2016 at 01:23 01Fri, 16 Sep 2016 01:23:57 +000057.

      Flá, viver num verão eterno não é mesmo tão legal quanto parece! hahaha Tem dia que cansa. Mas depois de um tempo a gente estranha menos.
      Havana está na minha lista de lugares que quero ir logo! Bom saber que tem esse mesmo clima… 🙂

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